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Pare de tentar gabaritar a sua existência

Quando a busca por saúde explora nossas inseguranças, o autocuidado pode se transformar em mais uma fonte de ansiedade e insatisfação

Acorde cedo. Respire. Medite por alguns minutos. Faça uma leitura. Depois, pratique atividade física e vá caminhando para o trabalho.

No almoço, coma a marmita saudável que você preparou no domingo. Tome café sem açúcar — mas somente até o meio-dia, para não prejudicar o sono. Volte para casa a pé, prepare o jantar e reserve um momento para cultivar relações saudáveis e brincar com seu filho — de preferência com jogos educativos. Depois, inicie uma impecável rotina de higiene do sono para estar na cama às 21 horas.

O que é isso?

A descrição do dia de uma pessoa ou a programação de um robô?

Existe uma diferença importante entre adotar hábitos saudáveis, conhecer a Medicina do Estilo de Vida e, de fato, construir uma vida saudável. Existe uma distância enorme entre um gabarito e a realidade.

Afinal, quem disse que você precisa acertar tudo o tempo todo?

Durante estes dias de descanso na Lapinha, conversei muito com minha amiga Dra. Regina Chamon — a @doutorasanguebom, no Instagram — sobre como pode ser complexa e desgastante essa busca permanente pelo “ótimo”.

Conhecer os pilares da Medicina do Estilo de Vida é uma coisa. Transformá-los em um plano individualizado, depois de avaliar o que você realmente precisa neste momento, considerando seu risco biológico, sua motivação e as circunstâncias concretas da sua vida, é outra completamente diferente.

Costumo dizer aos meus pacientes que os resultados dos exames laboratoriais não são o gabarito de suas existências.

Ainda assim, alguns gurus do estilo de vida saudável — com ou sem interesses econômicos — insistem em provocar um sentimento de insuficiência. Criam em você a sensação de que está sempre faltando alguma coisa: um suplemento, um método, um alimento, uma rotina, mais disciplina.

Uma falta que, curiosamente, muitas vezes pode ser “resolvida” por meio de uma compra.

Em situações mais extremas, essa lógica não vende apenas produtos. Ela promove uma verdadeira amputação do seu jeito de ser. Você deixa de enxergar a saúde como uma ferramenta para viver melhor e passa a organizar toda a vida em torno da obrigação de ser saudável.

Nada disso significa abandonar o autocuidado ou desistir de buscar mais saúde. Também não significa ignorar as ferramentas da Medicina do Estilo de Vida ou deixar de melhorar hábitos importantes.

Meu convite é outro: cuidar de si com mais leveza, sem se omitir, mas também sem transformar o autocuidado em uma prova diária na qual qualquer desvio representa fracasso.

Todos nós podemos — e provavelmente precisaremos — melhorar continuamente nossos hábitos. Mas ninguém consegue gabaritar o estilo de vida.

Também não é possível prevenir 100% das doenças. Uma vida extremamente rigorosa não oferece imunidade contra o adoecimento. Em algum momento, de alguma forma, todos nós ficaremos doentes. A saúde não é um prêmio concedido às pessoas que cumpriram corretamente todas as regras.

O que nos resta, então?

Buscar consciência e leveza. Reconhecer que sempre há algo que pode ser melhorado, mas refletir, junto com um profissional de saúde:

Do que eu realmente preciso neste momento?

O que devo priorizar agora?

Qual mudança faz sentido diante do meu risco biológico, da minha motivação e da vida que consigo viver hoje?

Talvez seja hora de abandonar a pretensão de gabaritar um estilo de vida saudável.

Faça o melhor dentro do que é possível hoje — com responsabilidade, sinceridade e toda a leveza que puder encontrar.

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