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Ninguém é capaz de prescrever aquilo que nem você decidiu viver.

A falácia de prescrever hábitos e o erro de percepção sobre a Medicina do Estilo de Vida

Esses dias eu estava passando pelo Instagram quando apareceu um anúncio dizendo:

“Aprenda a prescrever hábitos.”

Aquilo ficou na minha cabeça.

Quem me acompanha sabe que tenho muito orgulho de praticar uma Medicina do Estilo de Vida que procura permanecer fiel às suas origens. Uma medicina menos preocupada em oferecer fórmulas e mais interessada em compreender como as pessoas realmente mudam. Uma abordagem que busca ser uma alternativa sincera diante da pandemia de doenças crônicas que vivemos.

Hoje, praticamente todos os profissionais envolvidos com saúde compartilham a mesma angústia. Do agente comunitário ao ministro da Saúde, todos sabem que as principais causas de morte do nosso tempo têm relação direta com a maneira como vivemos.

Seria muito mais simples se nosso maior inimigo fossem apenas bactérias e vírus. Saneamento básico, vacinas, antibióticos e antivirais resolveriam grande parte do problema.

Mas não é essa a realidade. Grande parte da nossa batalha acontece dentro das escolhas que repetimos todos os dias.

E mudar isso é muito mais difícil do que parece.

Curiosamente, os médicos também têm enorme dificuldade em mudar seus próprios hábitos. Em alguns aspectos, acredito que tenham até mais dificuldade que muitos pacientes. Talvez porque anos de formação nos façam acreditar que conhecer é suficiente. E quase nunca é.

A neurociência mostra que boa parte daquilo que fazemos diariamente acontece de maneira automática. Os hábitos existem justamente para poupar energia do cérebro. Nós simplesmente fazemos.

É por isso que mudar um hábito nunca é apenas trocar um comportamento.

É transformar a pessoa que executa aquele comportamento.

Por isso a pergunta continua me incomodando:

É possível prescrever hábitos?

Você pode utilizar entrevista motivacional, terapia cognitivo-comportamental, coaching, psicanálise, hipnose ou qualquer outra ferramenta. Todas podem contribuir. Nenhuma delas, porém, é capaz de prescrever uma transformação.

Porque mudança não acontece por decreto.

Ela acontece quando nasce dentro da pessoa.

Foi isso que a Medicina do Estilo de Vida me ensinou.

O paciente não é alguém que recebe mudança. Ele é o protagonista dela. É ele quem decide se expõe a novas experiências, novos significados e novas emoções capazes de construir um comportamento diferente.

Depois de mais de dez anos acompanhando pacientes, uma impressão permanece cada vez mais forte para mim.

As pessoas raramente mudam por medo. Elas mudam por paixão.

O susto de um infarto, um diagnóstico ou uma cirurgia pode iniciar uma caminhada. Mas ela só continua quando o paciente começa a experimentar algo que vale a pena viver.

Mudanças duradouras precisam produzir boas experiências. Precisam fazer sentido e gerar afeto. Talvez a pergunta mais importante nem seja qual hábito você deveria adquirir. Porque existe uma pergunta anterior que é:

Você consegue perceber o que está sentindo?

Porque quem não observa as próprias emoções dificilmente compreende por que continua repetindo os mesmos comportamentos.

Hoje eu gostaria de deixar apenas algumas perguntas.

  • Você consegue se observar e entender o que está sentindo?
  • Quais escolhas saudáveis despertam emoções positivas em você?
  • E o que poderia fazer para que cuidar da própria saúde deixasse de ser apenas uma obrigação e passasse a ser uma experiência que você realmente deseja repetir?

Longe de mim querer prescrever hábitos.

Isso faria de mim apenas mais uma voz dizendo como você deve viver.

Prefiro acreditar que perguntas sinceras têm mais poder do que ordens bem formuladas.

Porque ninguém é capaz de prescrever aquilo que nem você decidiu viver.

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