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Quando o remédio vira grife

O que as canetas para emagrecimento revelam sobre saúde, consumo e status social.

Os pacientes estão começando a se comportar diante das canetas para emagrecimento de maneira semelhante àquela com que escolhem uma roupa, um tênis ou um automóvel. Observam a marca, reconhecem o prestígio associado a ela e avaliam, mesmo sem perceber, o impacto social de dizer que estão usando aquele produto.

Há pouco mais de uma década, o problema era outro. A obesidade era tratada com poucas alternativas medicamentosas, resultados modestos e uma enorme dose de julgamento moral. A chegada da liraglutida representou uma mudança importante. Um medicamento inicialmente desenvolvido para o diabetes mostrou que era possível produzir perda de peso clinicamente relevante e oferecer às pessoas com obesidade algo além da velha recomendação de comer menos e se movimentar mais.

Anos depois, a semaglutida ampliou ainda mais essa transformação. Seus efeitos ultrapassaram os consultórios e chegaram à cultura, às redes sociais, à indústria alimentícia e às decisões de consumo. As canetas deixaram de pertencer apenas ao vocabulário médico. Passaram a fazer parte das conversas cotidianas.

A tirzepatida acrescentou uma nova dimensão a essa história. Com um mecanismo mais amplo e resultados médios ainda mais expressivos, tornou-se rapidamente objeto de desejo. O que deveria ser apenas o nome comercial de um tratamento começou a representar algo maior: acesso, poder aquisitivo, modernidade e pertencimento.

Foi nesse momento que a medicina começou a se encontrar com a lógica das marcas.

Naturalmente, existem diferenças entre as moléculas. Elas não apresentam a mesma potência, não possuem exatamente as mesmas indicações e não são igualmente adequadas para todas as pessoas. Em alguns casos, a tirzepatida pode realmente ser a melhor escolha. Em outros, uma opção diferente pode oferecer um resultado suficiente, mais acessível e mais sustentável ao longo do tempo.

O que chama a atenção, porém, é a disposição de algumas pessoas para usar a marca desejada a qualquer custo. Aceitam um produto trazido irregularmente de outro país, sem segurança sobre transporte e armazenamento. Confiam em apresentações de procedência duvidosa. Submetem-se a aplicações feitas dentro de consultórios sem saber exatamente qual produto está sendo utilizado. A promessa associada ao nome parece ser suficiente para suspender perguntas que normalmente seriam óbvias.

De onde veio? Quem produziu? O produto possui registro? Houve controle de esterilidade? A cadeia de refrigeração foi preservada? Existe garantia de concentração e estabilidade? O que será feito se ocorrer um evento adverso?

Quando alguém compra uma camiseta falsificada, o maior risco pode ser receber um tecido de qualidade inferior. Quando compra um medicamento falsificado, adulterado ou de procedência desconhecida, o corpo se transforma no lugar onde a falsificação será testada.

Ao mesmo tempo, a queda de patentes e a chegada de novos fabricantes tendem a ampliar o acesso a tratamentos antes restritos a uma parcela pequena da população. Essa é uma das consequências mais importantes do amadurecimento desse mercado. A concorrência pode reduzir preços, favorecer a continuidade do tratamento e permitir que mais pessoas sejam cuidadas. Mas o acesso ampliado somente representa avanço quando vem acompanhado de registro sanitário, controle de qualidade e indicação clínica adequada.

Existe, portanto, uma contradição curiosa. Enquanto a ciência trabalha para tornar o tratamento mais acessível, parte da sociedade pode continuar desejando justamente aquilo que permanece mais caro. Não necessariamente porque seja indispensável para aquele caso, mas porque o preço elevado também participa da construção simbólica da marca.

Novas moléculas já estão a caminho. Elas provavelmente produzirão perdas de peso ainda maiores e serão lançadas cercadas de expectativa, celebridades, comparações e desejo. O mercado continuará fazendo o que sempre fez: transformar diferenças reais de desempenho em narrativas de distinção.

A medicina precisará fazer o movimento oposto. Recolocar o paciente no centro da decisão, diferenciar potência de adequação e lembrar que o melhor tratamento não é obrigatoriamente o mais novo, o mais caro ou o mais comentado. É aquele que reúne indicação, segurança, procedência, acesso e possibilidade de continuidade.

A pergunta, portanto, não é se alguém prefere semaglutida ou tirzepatida. A pergunta é outra: em que momento passamos a aceitar mais riscos para usar a marca que desejamos do que para receber o tratamento de que realmente precisamos?

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