Hoje, durante uma consulta, me veio uma expressão que ficou na cabeça e que acho que traduz bem uma situação que tenho encontrado com alguma frequência na minha prática e vivência diárias: os diversos tons de cinza de um burnout.
O paciente chegou com uma queixa bastante comum, um cansaço persistente que já vinha acompanhado de algumas hipóteses sobre o que poderia estar acontecendo. Talvez alguma deficiência de vitamina, uma alteração da testosterona, algum hormônio fora do lugar ou qualquer outra explicação que pudesse ser encontrada em um exame, receber um nome e, quem sabe, ser corrigida com alguma intervenção relativamente objetiva. Nada disso é absurdo e, diante de um quadro de cansaço, existe evidentemente uma investigação que precisa ser feita, porque distúrbios do sono, doenças metabólicas, cardiovasculares, hormonais e tantas outras condições podem se manifestar dessa maneira.
O problema é que, conforme a conversa avançava, começava a aparecer uma história que nenhum exame de sangue seria capaz de contar sozinho. Havia ali uma pessoa submetida há bastante tempo a uma carga importante de estresse, acumulando responsabilidades profissionais, familiares e pessoais, tentando corresponder às expectativas que os outros depositavam nela e, provavelmente, às expectativas que ela própria havia construído para si. O mais interessante é que, muitas vezes, aquilo que começa a parecer evidente para quem escuta essa história de fora não é nada evidente para quem está vivendo dentro dela.
Existe uma fase da vida, especialmente entre os 35 e os 50 anos, em que esse fenômeno me parece particularmente interessante. É quando a senioridade profissional começa a chegar e, junto dela, aparecem não apenas as recompensas de uma carreira construída durante muitos anos, mas também o peso das responsabilidades que acompanham esse crescimento. Os projetos ficam maiores, mais pessoas dependem das nossas decisões, os filhos crescem, os pais envelhecem, os compromissos aumentam e, paradoxalmente, começamos a receber algumas das oportunidades pelas quais passamos boa parte da vida trabalhando.
“O paradoxo é: Quando mais você gosta do que faz, mais potente se encontra na função que ocupa, quanto mais propósito você encontra no trabalho, maior seu risco de Burnout.”
Talvez seja justamente por isso que seja tão difícil perceber quando alguma coisa começa a sair do lugar. Existe uma imagem muito simplificada do burnout como o resultado de um trabalho que odiamos, de um ambiente insuportável ou de uma rotina da qual queremos desesperadamente fugir, quando, na prática, o processo também pode acontecer com quem gosta profundamente daquilo que faz, encontra propósito no trabalho, sente-se competente, percebe que está crescendo e, justamente porque tudo aquilo importa muito, vai aceitando um pouco mais de responsabilidade, um pouco menos de sono, mais um compromisso, mais uma noite trabalhando e mais um final de semana parcialmente ocupado.
Nenhuma dessas concessões, quando observada isoladamente, parece suficientemente grave para justificar preocupação. Talvez seja exatamente aí que estejam os tons de cinza.
Quando pensamos em burnout, normalmente imaginamos o momento em que o quadro já se tornou evidente, com esgotamento importante, sofrimento emocional, prejuízo profissional e uma sensação de que simplesmente não é mais possível continuar funcionando como antes. Esse é o ponto que todos reconhecem porque é quando o adoecimento já ganhou nome, mas existe um caminho muito mais longo até chegar ali, e talvez seja nesse caminho que tenhamos a maior oportunidade de fazer alguma coisa.
O corpo, muitas vezes, começa a sinalizar antes que a própria pessoa reconheça o que está acontecendo. O sono deixa de ser reparador, a irritabilidade aumenta, o cansaço começa a sobreviver aos finais de semana, aparecem dores, alterações gastrointestinais, manifestações de pele, episódios recorrentes de herpes, dificuldade de concentração e uma progressiva redução do espaço destinado ao exercício, ao lazer e às relações. Nenhum desses sinais isoladamente significa burnout e todos eles podem ter outras explicações, mas o conjunto pode contar uma história que merece ser ouvida.
Talvez uma das partes mais traiçoeiras desse processo seja justamente o fato de que, durante muito tempo, a pessoa continua funcionando. Ela trabalha, entrega, participa das reuniões, cuida da família, resolve os problemas, cumpre a agenda e continua sendo aquela pessoa em quem todo mundo confia. Como ainda consegue fazer tudo isso, interpreta a própria capacidade de continuar como evidência de que está tudo bem, quando talvez esteja apenas utilizando uma quantidade cada vez maior de energia para sustentar uma rotina que deixou de ser sustentável.

É também por isso que precisamos tomar cuidado para não transformar o estresse em uma explicação preguiçosa para qualquer sintoma. Dizer para alguém que está cansado que “é só estresse”, sem investigar adequadamente, pode ser tão inadequado quanto solicitar dezenas de exames procurando uma alteração laboratorial e nunca perguntar como aquela pessoa está vivendo. Uma boa avaliação precisa conseguir fazer as duas coisas: excluir aquilo que precisa ser excluído e, ao mesmo tempo, compreender que existe uma biografia por trás dos resultados dos exames.
Essa é uma das coisas que mais me interessam na Medicina do Estilo de Vida. Alimentação, atividade física, sono, relações, uso de substâncias e manejo do estresse não acontecem em compartimentos independentes, porque todos esses elementos estão submetidos à mesma rotina. Quando essa rotina começa a adoecer, dificilmente apenas uma dessas dimensões permanece comprometida, e talvez por isso olhar apenas para cada sintoma separadamente faça com que percamos a história que está sendo contada pelo conjunto.
Foi por isso que gostei tanto da expressão que surgiu naquela consulta. O burnout pode ser o preto, o ponto em que finalmente conseguimos enxergar com clareza aquilo que aconteceu, mas existem diversos tons de cinza durante o processo de adoecimento. Há uma distância enorme entre estar absolutamente bem e chegar ao esgotamento, e talvez estejamos acostumados demais a reconhecer a doença apenas quando alguém finalmente atravessa essa distância inteira.
Talvez você continue trabalhando bem, produzindo, sorrindo, viajando, cuidando da família e resolvendo os problemas de todo mundo. Talvez ainda tenha prazer no que faz e até considere absurdo imaginar que possa estar caminhando na direção de um esgotamento. E pode ser que realmente não esteja. Mas a pergunta que vale a pena fazer não é apenas se você chegou ao preto.
A pergunta é: em que tom de cinza você está vivendo hoje?